terça-feira, 6 de novembro de 2007

Deixem-me estar sossegado!

Um sujeito que eu não conheço e a quem nunca fui apresentado passa às vezes por aqui e, embora não ponha as vírgulas onde elas mais fazem falta, sempre deixa observações com interesse. Também eu acho que isso da tradição já não é o que era. Senão vejamos.
Estava eu refastelado no sofá, resolvi dar um passeio pelos canais da televisão (sei que muitos preferem dizer zapping). Sem pretensões, apenas queria divertir-me ou espairecer um bocado. Mas não estava preparado para tanto.

Parti da RTP, que transmitia o País Regiões e encalhei na TVI, dando com uma das suas novelas fantásticas, do género Deixa-me Amar e Não Fujas, etc. O que de repente vi foi cerca de uma dezena de raparigas enfiadas numa casa-de-banho dum liceu, sendo que nove destas não tinham lá ido para fazer nada, mas apenas para acompanhar a necessitada. Isto é verosímil, claro, até aqui tudo (mais ou menos) bem. Ora duas dessas raparigas estavam de pé, mas muito curvadas, de modo a expor a farta cabeleira perante as outras, cuja tarefa era procurar piolhos e lêndeas suspeitos. Ainda não estamos perante nada de impossível, a não ser no momento em que, perante a descoberta real de insectos daquelas duas espécies, todas as outras raparigas se raspam rapidamente aos gritos estridentes de «é super nojento, sei lá», «ai que coisa mais horrível», etc.

À procura de algo menos hilariante, desci à SIC e então… Então é melhor contar apenas o que se estava a passar. Uma rapariga muito chorosa (sim, a Floribella, com dois ‘L’), falava num tom escatológico com uma suposta mãe que não estava presente (algo como ‘minha mãe porque me abandonasteS’), porque quando estava presente ela sabia sempre o que fazer e agora já nem as suas sapatilhas da sorte (sic) lhe mostravam o caminho. E então continuava a falar com a mãe (na verdade, era uma planta, ou uma mãe transformada em planta, ou vice-versa, ou qualquer outra coisa), a chorar tristemente, até que o céu se iluminou, raios divinos abriram as nuvens e eu mudei de canal. Deixem-me estar sossegado!

Eu que costumo dizer que a realidade supera sempre a ficção sinto-me tentado a dizer antes «a realidade supera a ficção, a não ser que seja a da SIC, da TVI, ou da RTP».

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A tradição já não é o que era!

Por falar em hipérbole... Gostaria de escrever sobre uma parvoíce qualquer, daquelas a que recorro muitas vezes. Aliás, nada de estranhar para quem me conhece, como parvo que sou.
Recorrendo mais uma vez ao sentido enfático de hipérbole, para dizer que os tempos é que são e estão um exagero. Se não vejamos:
Antigamente, aqui no terraço de casa, os meus irmãos e eu passávamos (algures na pré-adolescência, quando as hormonas ainda não nos mandavam para outro sitio) grandes temporadas a: brincar ao futebol, às escondidas, a fugir do meu irmão André (que nos batia), construir carros de rolamentos, a subir aos telhados dos prédios ao lado, etc. Bons tempos esses, em que o nosso sentido de responsabilidade era inversamente proporcional às idades de todos os inquilinos do prédio somadas.
Isto tudo mais ou menos até à idade de uma hormona chamada testosterona nos dizer: "Eh pá o que é que estão para aí a fazer? Vão comer gajas, meu!"
Atenção! Repararam? Recorri a outra figura de estilo. Desta feita, a personificação.
Que giro este texto.
Bem... mas vamos a exemplos concretos de como os tempos estão mudados.
Este ano de 2007 está a ser um ano riquíssimo em acontecimentos sobrenaturais aqui no prédio. Acordei, no outro dia, com uma barulheira que parecia vir do terraço. Qual não é o meu espanto quando ao dar a volta para ir ao terraço vejo um miúdo cá em baixo e outro ainda pendurado na janela do 2ª andar. Eu, ainda meio taralhoco, esfreguei bem os olhos para ver se estava a ter algum surto de... mas não. Resumindo e baralhando, os miúdos justificaram-se dizendo que as miúdas os tinham trancado no quarto e que por isso a única salvação era começarem a sair todos pela janela. Eu disse:
- "Ah bom. Isso é normal!"
Muito mais sensato, cair no terraço do vizinho, ir dar a volta pelas escadas e pedir, novamente às raparigas (desta feita) para entrar (e não deixar sair) pela porta da rua.
Claro que, como gajo porreiro que sou, deixei a turma toda sair pela janela. É que derivado do facto dos rapazinhos e rapazinhas não terem tido aula de substituição, culpa de algum professor que é um vagabundo e não quer trabalhar, os miúdos ainda se arriscaram a fracturar a tíbia ou o perónio. Eh pá, não pode ser. Malandros dos professores.

Segundo episódio, este, mesmo insólito:
No outro dia, com a minha mãe e eu em casa, um dos jovens moradores do prédio ao lado, cujo terraço também tem acesso ao nosso, tocou-nos à campainha. Quando ouvimos uma voz do outro lado da porta a dizer: "Sou eu o....., esqueci-me da chave". Como é uma situação que acontece com alguma frequência num ano, naturalmente abrimos a porta para deixar o miúdo entrar. Agora o que não esperávamos era abrir a porta ao nosso jovem vizinho e encontra-lo em trajes menores (cuecas), de meias, com as calças e sapatos na mão. Acelerando para o terraço como se nada fosse, com um simples: "Obrigadão Tiago, desculpe lá D. Cidália" e seguiu à sua vida.
É assim mesmo juventude. Foste aliviar uma inquilina qualquer do prédio.
Isto é que é prestar serviços à comunidade.
Nós realmente fomos uma geração rasca, que não se desenrascava, absolutamente - nada. Vamos ver o que ainda nos reserva este próspero ano de 2007. Façam as vossas apostas!

Por: Tiago Pereira da Silva

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Hipérboles e outras metáforas

A hipérbole é uma das figuras de estilo que mais usamos. Também pode ser uma curva, mas isso não é para agora. Caso não se recordem, consiste em exagerar uma expressão de modo a conseguir um efeito enfático como em «estou à espera de um aumento há séculos» ou «lá estava ela, morrendo de cansaço». É aliás frequente recorrer à ideia de morte nas hipérboles. Os Monty Python basearam uma das suas melhores rábulas na ideia de «morrer a rir». Tratava-se de uma piada extraordinária, a melhor que jamais alguém escrevera. Era de tal modo que ninguém poderia ouvi-la sem acabar por morrer de tanto rir, desde o autor da dita até ao exército alemão na II Guerra Mundial (podem vê-la e ouvi-la aqui, depois de escreverem o vosso testamento).
As crianças são useiras e vezeiras desta figura: «levas um soco que até desmaias» ou «levou cá uma assim, que foi parar à Lua».
Nos bancos da escola também se nota, e em testes então nem se fala. Os professores de História poderiam escrever milhões de livros (pimba, mais uma) com material deste, como o História de Portugal em disparates, em que muitos deles são hipérboles. Como a daquele aluno que achava que Camões tinha salvo Os Lusíadas ultrapassando o Cabo das Tormentas a nado. Man, ganda Camões! Na altura isso ainda não era possível.
Há povos mais «hiperbólicos» que outros. Os latinos são sem dúvida mais hiperbólicos que os germânicos ou os eslavos, embora quanto a estes últimos deva fazer uma salvaguarda, pois não falo nenhuma língua eslava. Mas acho bem mais provável ser um português ou um italiano a dizer que o Sporting ou a Lázio nunca mais vão ganhar um campeonato outra vez, ou a contar como foram um dia qualquer ultrapassados na autoestrada (quem sabe uma estrada secundária ou mesmo rua estreita) por um tipo que era doido (uma hipérbole meio metafórica), vinha sem luzes e não se via nada, no mínimo a duzentos. Quem sabe de marcha atrás…


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Será a língua portuguesa assim tão traiçoeira?

Há situações em que a língua portuguesa é muito traiçoeira. No fundo, não é bem a língua. Eu diria que é mais a cabeça…
Vejam como há tanta gente que gostaria de poder evitar estas situações. A essas pessoas resta-me dizer, em jeito de consolo, que talvez a Paula Bobone ainda venha a escrever um «livro» sobre isso. Enfim, um evitável desperdício de celulose. Vamos sem demora ao 1º exemplo:
(No café, a cliente pede ao empregado um copo de leite )
- «Desculpe, o senhor tem Vigor?»
- «Lamento, minha senhora, mas hoje não…

2º Exemplo:

A dita senhora (está mesmo a pedi-las) pede um croissant com chocolate, para acompanhar o leite Ucal; o empregado serve-lhe um croissant com uma barra de chocolate lá dentro.

- Não se importa de me aquecer?
(o empregado, solícito) - Com certeza…

Para finalizar, e porque esta espécie de piadas assim a dar para o «lácteo» me lembra uma cena que testemunhei há muitos anos: uma rapariga corria desenfreadamente para apanhar o autocarro. Esvoaçavam cabelos, os braços agitavam vários sacos com embrulhos. Baloiçava para baixo e para cima o farto peito. Nele se podia ler, estampada na camisola, a publicidade: Batidos Milupa.
Mas isto de dizer que uma língua é traiçoeira é ver as coisas ao contrário. É a mente, jovens. Ou melhor, é a mente jovem. Senão vejam como também a minha e a vossa funcionou nestes casos.

sábado, 27 de outubro de 2007

Pornografia em Portugal

Educação sem escolas, partos em ambulâncias, polícia nas delegações sindicais, tratados europeus à rebelia do povo...
É caso para dizer "querer é poder", para este José Fócrates.

Mais Pão com Manteiga !

Pão com Manteiga, o genial programa da Rádio Comercial dos anos 1980, vê agora os seus textos reeditados pela Oficina do Livro. Já aqui o dissemos, este momento ímpar do humor português é uma grande referência para o Sapo e a Parafusa: se não tivesse havido o Pão com Manteiga este blog não existia (os autores ainda estão todos vivos, para o caso de querem ajustar contas com eles). Nomes: Carlos Cruz, José Duarte, Mário Zambujal, Orlando Neves, Bernardo Brito e Cunha e Eduarda Ferreira. Acho que vivem em Lisboa.
Vão agora poder saber, entre muitas outras histórias, a do velhinho que era tão velhinho mas tãããããõ velhinho, que a última que tinha dado ainda se escrevia com ‘ph’.

acima: capas da ed. original e reedição


quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A TVI e os elefantes em telhado de zinco quente

A probabilidade de encontrar uma notícia no noticiário da TVI é basicamente a mesma que encontrar uma agulha num palheiro. Ou ver um elefante no espaço - como aqui ao lado, atrás desta pedra. É sempre isto e aquilo e o galo que bateu com a cabeça, entrou em sentido contrário e cantou toda a noite numa aldeia do Ribatejo. Ou o novo namorado do namorado da Elsa Raposo ou da outra que quase se divorciou mas que afinal.
Também têm, verdade seja dita, perspectivas muito particulares sobre coisas importantes, é certo. Como a opinião do Miguel Sousa Tavares sobre fumadores ou sobre o Pinto da Costa, e de que isto é só corruptos para aqui e para ali e nós é que pagamos as favas, mesmo sabendo que não é ele que as paga. E assim o Miguel dá uns ares, apesar daquela voz que as quatro mil substâncias do fumo dos seus cigarros entretanto carbonizaram. E que o fazem produzir um ronco tão grave que dava jeito que lhe distorcessem a voz, tornando-a mais aguda, como fazem sempre que entrevistam uma das testemunhas do processo Casa Pia que ainda não foi ameaçada de retaliações vezes suficientes para se passar rapidamente da acusação para a defesa ou para o Gaiato.
Mas isto vinha apenas a propósito da TVI e das suas notícias. É demais o não-conteúdo e a profundidade rala daqueles fragmentos de reportagem, como diria o já saudoso Raul-na-sequência-deste-pequeno-apontamento-noticioso-Durão. Vou propor, se alguém no conselho de gerência daquela casa quiser ouvir – nunca ninguém quer, não sei porquê – que levem para lá a Fátima Campos Ferreira, depois de uma mudança radical de visual e uma viagem ácida. O conteúdo do cérebro é ideal para a função e ela até já tem aquele ar deslumbrado, susceptível de aumentar se alguém, durante as gravações, lhe meter um dedo num sítio indevido
.

domingo, 21 de outubro de 2007

Dando um empurrãozinho à natalidade fazendo programas um bocadinho estúpidos

Cantando e dançando por um casamento de sonho... Epá, custou mas consegui lembrar-me do nome completo deste programa! Como disseram os Gato Fedorento, a TVI conseguiu juntar num mesmo nome dois gerúndios. É obra - e é sobretudo muito estúpido. Só mesmo a TVI. Pensando melhor, a RTP e também a SIC não teriam demorado muito.
Este programa bem poderá dar uma forcinha às políticas de incremento da natalidade em Portugal, coisa que os subsídios do governo ainda não conseguiram. Mas não tem muito que ver com o casamento. A coisa é bem mais simples e menos traumática. Quando o programa começa, uma parte considerável dos espectadores ainda capazes de pensar, como os leitores deste blog, desliga o televisor e vai direitinho para a cama. De preferência sem se lembrar da apresentadora Júlia Pinheiro.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Lá se foi o Flopes

João Miguel Tavares, jornalista bem-humorado e lúcido quanto baste (às vezes basta só mesmo um bocadinho e a realidade apresenta-se-nos de modo bem diferente) proporciona-nos de vez em quando uma preciosa lufada de ar fresco.
Há uma semana atrás, Santana Flopes saiu dos estúdios da SIC indignado por ser menos popular que José Mourinho. Ou não foi isto? Se fosse outra pessoa, doutro partido, noutro país, talvez eu acreditasse que era outra coisa qualquer. É verdade que, se neste país todos se comportassem de forma mais inteligente, talvez a SIC não tivesse dado tal bronca, talvez tivesse depois assumido o que fez, etc. Mas como escreve João Miguel Tavares, ver «Santana Lopes indignar-se por ter sido interrompido por um directo idiota faz tanto sentido quanto Cicciolina ruborescer ao ouvir um piropo na rua».
Isto é a pura das verdades e ainda temos direito a uma palavra lindíssima: «ruborescer».
Dispensam-se mais comentários, recomenda-se a lucidez do jornalista, rara num tempo em que escasseiam as diferenças entre jornalismo dito sério e tablóides, aqui como em toda a parte. É péssimo para o país, embora seja bom para este blog.
Termino com outra citação de JMT: «é sempre muito mais interessante ver Santana Lopes a sair de um estúdio de televisão do que a entrar nele».

Este blog é um ninho de cucos

Quando surge um comentário de um desconhecido neste blog, é como se me oferecessem flores. Foi mais uma vez o caso. Um senhor que leu um texto meu de há uns meses atrás (aquele em que conto o meu passeio em zonas do Metropolitano de Lisboa interditas ao público e em que há comprovadamente perigo de morte) resolveu comentá-lo. Disse também que sugeria uma visita ao blog onde anuncia os seus serviços. Esse senhor, a quem deito daqui um abraço, é... psicólogo clínico!
Não é que desconfie dos seus intentos, meu caro, mas a verdade é que, no tocante a psicoterapia, já estou bem servido. Resta-me suspirar de alívio por não ter nascido há setenta anos atrás: assim ao menos ainda posso esperar que não me dêem electrochoques ou me enfiem um colete-de-forças.
Talvez o meu irmão...?